segunda-feira, fevereiro 18, 2008

odiar

Às vezes fico pensando de onde vem tanta raiva. Aquele ódio profundo que cresce de dentro para fora. Que faz com que todo o resto perca a cor e sobre só isso: ódio. Um sentimento fundo, denso, opaco. Uma sensação de sufocamento interno, como se o próprio corpo se afundasse em sangue e o estômago pedisse para respirar. Estômago - devo ter perdido meus pulmões.
De onde a raiva vem, não sei dizer, mas os motivos poderia muito bem enumerar. Faz tempo que entendi que o ódio é um tipo de amor. Um amor que esqueceu de ser bom. Um amor mesquinho, egoísta, auto-destrutivo e, pior, rancoroso. Guarda tanta mágoa.
Guardo mágoa do que não fiz, do que não me fizeram e de, talvez, do que não vão fazer. É um ódio acorvadado, não quer arranjar briga com ninguém. Raiva contida, ranger de dentes, ansiedade - seja lá como o chamam por aí. E isso me perturba, me deixa irritada, me corrói por dentro. Sou capaz de armar infinitas respostas de supostas brigas que nunca vou travar. É puro egoísmo odioso.
Nunca me dediquei a escrever sobre o ódio, quase não vim. Não sei, me soa sujo, sempre falo sobre amor. Mas aí que tá, ódio também o é - e eu já me disse. E por mais que eu ache certo, sentimento como qualquer outro, ainda me soa sujo. Talvez apague tudo isso antes de publicar.
Não sei como vou vencer o ódio de hoje. Por vezes acabo usando açúcar, literalmente, ingênua. Outras vezes alguém me ganha - o ódio sempre perde fácil, mas também sempre volta. Insistente. Então não sei, não sei de nada. Estou chata demais pra mim, corrosiva demais pra escrever e confusa em excesso pra me explicar. Resumindo: estou eu e me odiando.
Amar é ingrato.

domingo, janeiro 13, 2008

egoísta

Não sei o que escrever, mas sei que preciso, sei que é o me falta.

A estranheza de perceber que alguém se deu conta do que me faz sucumbir por dentro me assusta. Não sei lidar com isso, não sei lidar com carinho, muito menos com amor. Amor dos outros. Me dilapidei de certa forma que sou capaz de sublimar, quase tocar, o mais perfeito dos sentimentos, as menores sutilezas dos meus sentimentos. E aí que está, não sei lidar quando vem de fora, quando as sensações vêm de fora, quando não vêm de mim. Fico perdida, não sei como agir. Me desarmam e não sei o que fazer. O tempo inteiro me exercitei pra parecer uma muralha. Não gosto de demonstrar o que sinto, não gosto de chorar na frente de alguém, odeio demonstrar fraqueza. É lógico que sei que isso é simplesmente ridículo, ninguém me cobra isso, seria até um disparate. Mas eu me cobro isso, eu. Sou capaz de ser minha própria carrasca - eu me meto medo.
Agora, pensando assim, chego a conclusão que sempre cheguei: sou uma egoísta. Tudo que sinto é de eu para mim. Todos os meus problemas me giram em torno. Tudo não chega a ultrapassar as pedras da muralha que tanto quis construir. E pronto. Tanto anos que já se seguiram, pedra por pedra, sei que qualquer mínima pertubação pode botar tudo abaixo. É assim que me sinto quando alguém me nota. Sinto os muros virem abaixo e deixarem em plena exposição meu eu frágil, franzino, cheio de dúvidas e hesitações. Pra mim soa como pecado.
Sei como é díficil, se sei, responder a questões tão simples como "o que você tem?". Não sei o que tenho, nem o que não tenho, tudo me pesa na mesma balança. E enquanto penso no que me falta ou não falta, sinto os pedregulhos rolarem rápidos da muralha, despedançando em vários pontos. "O que você tem?". Tenho vontade de responder que não tenho nada, mas que também tenho tudo, e isso faz de mim uma enorme descontente - descontente egoísta. Mas admitir uma coisa dessas realmente me faria sofrer, me deixaria à mercê daquele eu fraco que quero esconder. Então eu disfarço, não minto, mas escondo. Mentir seria vil demais, minto só se for pra não deixar que sofram por minhas preocupações, como sempre, egoístas. Só devolvo a pergunta, rápida, me achando a mais esperta das criaturas "Por quê? Pareço ter alguma coisa?". Deus sabe que esperteza demais é burrice. E eu sei, que essa minha malandragem não passa de faixada, faixada tão delicada, de alguém que se destrói por dentro.
Tenho medo de estar enlouquecendo. Não minto, tenho mesmo. Às vezes não me reconheço no espelho, às vezes não me reconheço nas mãos, nos pés, em nada. Parece que não sou eu, nem fui eu, fui só alguma coisa que inventei. Alguma coisa que não consigo controlar direito, que me escapa de vez em quando e que faz perceber, em teses egoístas de verbos em primeira pessoa, o quanto não me acho, não me entendo e me condeno. Porque viver sempre é tão difícil. Me dói viver, sei que me dói, mas não vejo outra forma para ser feliz.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Difícil compreender as linhas da vida. Talvez nem sejam linhas - essa mania de pensar tudo em palavras. Talvez não seja nada. Um dia eu pensei, pensei sem querer, com a cabeça encostada no travesseiro, fitando o teto. Um dia, meu amor, eu pensei que a vida era generosa comigo. Generosa demais. Não sabia nem como agradecer. As cores eram mais cores pra mim. As sensações eram mais intensas pra mim. Tudo, tudo, tudo. Tudo ia e vinha em ondas de alegria. Em tons de sorriso, por Deus, em forma de felicidade. Aí eu sorri sozinha, meu amor. Sozinha. Virei para o lado, afoguei o rosto no lençol macio - estava roubando meu próprio riso, estava abafando meu êxtase pra que ele não fugisse. Compreende o egoísmo dos que são felizes de verdade? Meus olhos, então, fecharam, num sonho como os outros, num sonho com você, como sempre. Percebe que eu condicionei meus sentimentos, minhas certezas, meu ânimo e minha vida em você? Notou minha insegurança fazendo do teu chão o meu? Você viu meu amor simples, simples, puro - que só queria se salvar. De repente, assim, de repente, tudo ruiu. Não, não, não porque eu quis, não porque você quis. Mas porque a vida, a vida, meu amor, quis assim. Agora eu volto e digo: difícil entender as linhas da vida. Parece que ela voltou, voltou atrás, pra colocar aspas no começo - e no fim. Assim, como um conto, uma história bonita, um romance idealizado. Sim, sim, meu amor, porque eu lembro, eu relembro, eu busco nos detalhes das minhas lembranças indícios de realidade. Não daquela realidade, mas dessa aqui, que é cruel, que é fria, que é traiçoeira. E eu não encontro. Não encontro. Não sei se me traem, não sei se me cegam, não sei se me enganam - mas elas soam doces, soam livres, soam perfeitas. Me seduzem com ares de fantasia, me levam pra perto do seu rosto, me encantam com seu sorriso.
Não me entenda mal, meu amor, não. Não te culpo, não me culpo, nem culpo a vida. Não quero amaldiçoar ninguém, não. Não estou reclamando também. Não. Só queria um tanto de compreensão. Um tanto de maturidade, de dignidade, de respeito, de certeza. Não sei dizer, não sei explicar, mas sinto que me falta a força da fé cega, surda e muda. Me falta, sim, me falta, a força da devoção, do amor incondicional, da experiência da vida. E queria tanto descobrir como tocá-la, como fazer, me fazer, ser melhor. Dói, dói sim, ver ainda está tudo longe do meu alcance. Outras coisas me vêm, me tomam, me levam pra longe, me distraem. Outros sentimentos, outras notas da melodia. Mas (disso nunca duvidei nem vou duvidar) se minha música ainda toca, se cada dia descubro acordes diferentes, é porque tenho seu compasso ritmando minha vida. E isso me faz bem, me faz ir pra frente, viver tudo de novo, tentar de novo. Não sei agradecer, não sei provar - e nem quero. Não quero dizer pra ninguém o quanto te amo, não preciso disso. Eu sei disso, meu amor. Eu sei. Também não preciso ir muito longe, nem pensar demais, pra ver que o seu lugar, o seu lugar aqui, comigo, nunca será ocupado. Mas não é porque está vazio, mas porque está cheio, cheio de você.
Realmente me parece superficial desfilar linhas e mais linhas de algo que soa como desabafo. Me parece uma confusão, uma confusão de letras num desabafo sincero. Desabafo. Por um instante, confesso, despercebi a dimensão dos fatos, deixei que passassem ligeiros, empurrei a verdade com as mãos - tirei das vistas, pensando em enxergar lá, longe. E longe longe, longe que não existe, porque distância nunca teve. Então eu não empurrei pra lugar nenhum, nem sequer mexi, só estava lá, turvada, embaçada, miragem de lucidez. Não me vejo como dissumulada, nem displicente, nem coisa qualquer. Não sei que adjetivo usar, não sei nem que verbo pôr. E isso me assusta. Ponta de culpa? Talvez. Não sei até onde posso ir, não sei se posso voltar ou virar numa nova esquina. Eu tenho medo de errar com os outros, medo de perder, medo de pensar, medo de dizer, medo de não tentar. Então tento, fujo, choro, me perco. Queria saber as respostas, queria saber cuidar do que é importante, dos que são importantes, do que realmente vale a pena. Será que minhas mãozinhas são dignas de tamanho amor? Será, meu amor, será que minha alma é grande o suficiente pra que me espere? Será que fui capaz de te dizer tudo que deveria, todo amor que eu tinha e todo carinho que te queira?
Vida, vida, vida. Que vida é essa que pune tanto? Que magoa tanto? Que machuca tanto? Tenho pena, e pena é um sentimento vil, quero me desfazer dela. Ninguém precisa de penar, de lamentar, de desdizer - mas de estender o olhar, isso sim, de ajudar, de se mexer, de reinventar. Já faz tanto por mim, meu amor, tanto. Agora venho humilhada, pequena, ignorante dos sentidos de Deus, te pedir, mais uma vez, uma força que não se tem - porque não se dá, e porque eu não sou capaz de ter. Deposito minha esperança em você, porque, meu amor, porque minha vida só tem um sentido - sentido de amar. E eu sei que não preciso de outro caminho senão este. E não preciso de mais nada pra me bastar, as respostas estarão todas ali. Aí, aí, aí você me entra como o chão mais sólido desse meu caminho. Como o pilar mais resistente dessa grande construção que é a vida. Um dia, um dia, eu sei, minha construção vai ruir, como a de todos vão. Mas esse pilar vai ficar, ficar pra sempre - indestrutível.
Me impeço (e nem vejo razão) de me entristecer por aquilo que aconteceu, pelas lembranças enuveadas - nuvens, nuvens de sonhos. Não, não consigo lamentar, somente sorrir. Não me refiro em tons sóbrios, não me evito, não me contenho, porque alguma coisa, alguma coisa bem aqui, me sopra que o melhor a se fazer é viver. Viver mesmo que seja complicado, viver mesmo que seja sofrido - mas persistir, sim, persistir, porque estamos aqui pra construir, e não desmoronar o que um dia já foi feliz. E ainda é feliz, é, sim, tenho meu caminho pra seguir, minha certeza pra usar como escudo, teu amor pra me proteger de todos os perigos. Minha vida, meu amor, minha vida pra seguir e (me permito sonhar) espalhar esse sentimento imenso nessa realidade crua de existir.

quarta-feira, maio 09, 2007

vidar

Um dia, eu cheguei pra ele e disse assim, oh: se você acha que na vida a gente vive pra viver porque morrer é um final pra tudo quanto é coisa, não é não. A gente vive porque a vida quer, mas se vida quis é porque alguém quis primeiro. Mas isso aí eu já nao sei dizer, porque sempre que eu penso, eu sei que vou saber que eu não sei. Então você vive pra vida viver, e viver é como vidar, ato da vida, vidar, entendeu? Daí do entendido a gente faz o desfeito pra eu poder dizer de novo: se você pensa que viver é qualquer coisa por aí, eu digo que não. Não é, não.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

te am

A noite estaria estrelada. A brisa seria fresca. E o ar teria um aroma adocicado. Seria perfeito: ela diria aquelas coisas que sempre quis dizer. Falaria melhor que qualquer atriz desses filmes clichês sobre amor que tem por aí. Porque na verdade elas não sabem nada – concluía – não sabem nada sobre amor, nada! Mas o que ela faria, sim, o que ela faria, aquilo seria amor de verdade.
“Eu diria assim, leve, leve, como se buscasse cada palavra minuciosamente. Minha respiração ficaria ofegante, até me atrapalharia, mas seguiria firme. Olharia tímida para o chão alguns segundos. As mãos tremeriam, meu bem, tremeriam! Ficariam geladas e rígidas como num dia de inverno, mas era verão. Era noite. Era fresco. Então eu saberia, estaria nervosa, nervosa. Ansiosa pra te dizer. Ansiosa pra te fazer entender. E você me olharia confuso, com os lábios entreabertos – pra dizer alguma coisa que talvez nem existisse, seria só a hesitação de uma exclamação confusa. Os olhos escuros sutis brilhando com a meia-luz da lua.
Minhas mãos ficariam confusas também. Perdidas sem ter direção. Eu cruzaria os braços. “Não, não, isso não está certo” – pensaria rápida – e as mãos correriam ligeiras, procurando a melhor posição. Eu suspiraria e diria alguma coisa que você não iria ouvir. Que foi – eu escutaria – que foi. Que foi? Não teria certeza se era você me perguntando ou meu coração pulsando alto demais. Que foi, que foi, que foi. Então eu te olharia, meu bem, com os olhos do maior amor desse mundo. Encostaria suavemente meus dedos no seu rosto, sim, suave, e diria de uma vez só: te amo. Essas duas palavras se confundiriam e eu repetiria: teamo, teamo, teamo.
Te amo tanto, escuta - eu pediria – te amo. Cada pequeno momento, cada pequeno suspiro de hesitação, é uma onda de felicidade que eu sinto. Nunca me senti assim, meu bem, nunca! Como posso te fazer entender algo que eu mal entendo? Não me culpe, meu bem, não. Nunca me senti assim, é novo pra mim. Não sei explicar. É como se um dia alguém, de repente, me pegasse pelas mãos e me ensinasse a andar e a fascinação é tanta que não consigo contar meus passos. Eu te amo porque esse teu amar me faz andar. Porque quando eu estou assim, do teu lado, não preciso contar meus passos, nem minhas palavras, nem meus “poréns” tão desgastados: confio em cada movimento teu. Com você eu sou eu, sem vírgulas, sem adjetivos, só eu, entende? Você me mostrou, meu bem – aqui entraria uma pausa, uma pequena pausa pra respirar – que quando a gente perde um coração, alguém pode te dar outro. Um outro até melhor, melhor! Você me deu o que eu achei que nunca mais teria. Como pode alguém fazer tão bem pra outra? Como pode alguém amar e não saber dizer, me diz, como? Logo eu, eu que iria tão longe por você. Que desenharia os lugares mais bonitos, inventaria as histórias mais bobas só pra te ver rir. Eu, que cuidaria de cada detalhe, até dos mínimos, pra fazer dos teus dias os mais perfeitos. Eu, que decorei cada gesto teu pra repassar todo dia antes de dormir – pra me lembrar do tanto que eu te amo, do tanto que eu sinto e pra não esquecer de te mostrar, te mostrar tudo isso.”
Ele, então, inclinaria a cabeça sutilmente pro lado direito. E aquele sorriso, sim, seria aquele sorriso que só ele sabia dar. Os lábios se curvariam e suavemente se abririam. Os olhos piscariam lentos. O que ele pensaria? Teria entendido? – eu contrairia a boca, olharia o chão novamente, tiraria a mão do rosto dele. As bochechas avermelhadas.
Nessa hora, nessa hora! – pensava hesitada – Nessa hora a brisa tocaria sua pele, doce, quente, pulsante. E ela ouviria um “eu te amo” rasgado, cortando a vibração do seu nervosismo. Seria como um choque: rápido. Cada sílaba, cada ameaça de som daquela frase, ela sentiria. E o amor, o amor que por tantas vezes ela pensou, desejou, sublimou, seria todo dela e pra ela. Seria assim, seria assim.
***

Mas a noite estava fechada. As estrelas eram gotas de chuva. A brisa era fria e o ar, úmido. As palavras vinham e sumiam antes mesmo de serem entendidas. Ela queria dizer, mas os lábios não se abriam. Era como se tudo já tivesse sido dito. Seus olhos se enchiam de hesitações e coisas não-ditas, piscavam dissimulados. O chão lhe faltava, nem isto para ela desviar o olhar, nem isto. Não sabia se estava nervosa, feliz, ofegante, tudo se confundia – então calava.

As mãos se fechavam calmas em torno das mãos dele, o coração pulsando forte, podia sentir em cada parte do seu corpo. E a pergunta não era “o que foi”, mas “por que não diz”. Porque não consigo dizer, por quê? Por que não diz, por que não diz – sem ritmo, sem frases bonitas, sem suspiros e bochechas vermelhas. “Será que eu estraguei tudo?” – se perguntava mexendo os pés pra frente e pra trás num movimento infantil.

Então ele a encarou. Os mesmos olhos escuros sutis brilhando sem a meia-luz da lua, os mesmos. E ela ali, sem ação, sem ação! Piscando rápido, vendo todo aquele discurso desfilar sem poder alcançar. Tentava inventar, gritar, desviar qualquer atenção, mas a única coisa que insistia em sair eram suspiros rudes. Eu – conseguiu finalmente – eu... – calou – Olha...eu... – piscava rápido e, surpresa, viu os olhos dele fazerem os mesmo. Ela sorriu sem graça, ele parecia entender quando ela estava num impasse e a fazia rir quebrando qualquer mal-entendido.

Oh...eu... – tentou de novo, mas não continuou quando percebeu que tinha soado horrível. E ele lá, olhando, olhando, desconsertando-a de êxtase e nervosismo. Eu...te am – mal terminou sentindo os braços dele envolta dos seus numa mistura de prazer e alívio.

O tempo parou. As gotas se calaram. As estrelas não vieram, mas ouvir “eu sei, eu também, minha linda” dos lábios dele – dos lábios dele! – fora a sensação mais doce da sua vida.

domingo, janeiro 28, 2007

ela e sua janela

Sentada na frente da janela ela parecia esquecer de tudo. A chuva fria escorrendo pelo vidro meio-fosco da janela. Alguém deveria limpar isso - pensava calada - é, alguém deveria. O vento frio entrava pela fresta e fazia seus dedos ficarem rígidos. Acho que estou com frio, mas não quero sair daqui. Não, não - balançava a cabeça sutilmente de um lado para o outro. Porque se eu sair, vai ser como voltar, e eu não quero voltar. Acho que já fui humilhada o bastante, não? Subjulgada do jeito mais vil. Porque você sabe: me fazer sentir menor que o mundo é como me dizer "não" naquele começo. Nascer pra morrer, sabe como? - arrepiava-se e se afastava uns dois passos. A chuva estava mais forte e caía com violência.
Não me culpe pela hostilidade do que vive - chovendo, chovendo, chovendo. Posso criar também. Posso lembrar e reviver. Posso apagar essas gotas assim, oh, assim - remoia-se de ódio. Daí, coisinhas, quem vai dizer que não houve medo, quem? Quem vai dizer que tenho medo de viver ou de me atirar no que sinto, quem? - via-se cheia de cólera encolhendo-se em volta - o mundo anda pequeno pra mim.
A janela clara lhe desafiava. Tão escura, escura por dentro. Era como uma sombra andando pela casa. Um poço de hesitações e coisas pra fazer. Um buraco que sugava as vontades e os sentimentos de quem amava. Baixa e perversa - assim que funcionava. E a janela. Ah, aquela janela - clara e brilhante.
Estúpida! - gritava sem mexer os lábios - estúpida! Faz luz pra quem não merece. Posa de boa pra quem nem liga. Você é um buraco bem sucedido, não vê? Um buraco! Bonito brilhar assim? É a mais dissimulada das coisas. Vendo por dentro e por fora, por dentro e por fora! Que alegria você tem nisso, hein? Que alegria? Mistério, meu bem, mistério é o que eu tenho - fingia rir.
E a janela ali, impassível. A chuva parava e o sol vinha fazer brilhar as pequenas gotas do vidro.
Então é essa sua respostas? - cerrava os punhos com força - então é essa sua resposta? - as lágrimas escorriam quentes pela face enrrugada pela raiva. Eu tentei, eu tentei - redimia-se - eu tentei ser melhor, eu tentei fazer feliz. Mas não posso mudar aquilo que vem de dentro de mim. Essa mancha escura que mora aqui, aqui - batia forte contra o peito - você não sabe o que é sofrer, não sabe o que é sentir, muito menos amar! Você não sabe, não sabe... - soluçava se encolhendo .

Tinha acabado de brigar com a janela - e perdido.

segunda-feira, outubro 16, 2006

tao dificil admitir. tao dificil. olha. que os olhos castigados sao a prova da mais profunda humilhacao - pra mim, por voce. olha. que estou sufocada pelos solucos dos pesares. escuta. que minhas palvras ficaram mudas. senti o baque do chao. talvez nem seja o chao. mas ve, que vc me atirou mais fundo do que eu poderia ir. olha, amor. que o sofrimento eh a mais nobre sensacao de estar vivo. sente, meu bem. que as lagrimas que escorrem me fazem viva como nunca. sente. o gosto eh amargo pra mim. o horizonte eh distante pra mim. a vida anda tao sutil pra mim.

quis me salvar em voce. quis te querer. quis chorar - e chorei. quis voltar, mas jah tinha ido longe demais.

sexta-feira, agosto 18, 2006

escuta, amor, eh com o que me resta que te digo: nao me conheco mais. nao te conheco mais. e a vida se fez assim. as sutilezas dos sorrisos, os brilhos dissimulados. entao nao ha mais nada. e ficamos entre precipicios. e ficamos entre muralhas. mas, nao, amor, nao. nao nos perdemos em alguma esquina. nem saltamos naquela ponte. simplesmente sumimos. e sumir, bem bem, nao quer dizer desaparecer. percebe as sutilezas? nao, amor, nao. ainda vivemos os mesmos tempos de antes. ainda respiramos. por deus, ainda existimos. e quem, me diga, quem somos nos? eu sei, sei que eh tarde pra saber, sei que eh triste para lembrar. mas, veja, meu bem. tu, tu que sempre fostes o meu bem. tu que sempre me arrancastes suspiros e declaracoes inflamadas. ai estah. por onde tu andastes? por onde? meu carinho por ti nao te persegue. ele existe. e existencia assim, amor, eh prasempre. e tu sabes.
e agora, agora, querido, te digo com os olhos baixos de quem quer ver: nao me conheco mais. nao me sinto mal por isso. nao te sinto mal por isso. me sinto viva e gostando de ti como sempre. e isso me basta.

sexta-feira, julho 28, 2006

quero um copo bem grande de nada. com sabor de tudo. com sabor de vida tomada. com cor de felicidade reprimida.
quero um copo grande de amor.

quinta-feira, junho 22, 2006

e aquela mania de carregar um coracao na cabeca parecia que nunca ia passar. bendita hora que ela resolveu ser assim. bendito dia que ela resolveu sorrir. e quem vai impedir? quem vai lutar por ela? quem vai enxugar as lagrimas dela?

e quem vai sorrir pra ela?

tanto faz. ela nao queria qualquer sorriso ai. queria soh um. e sabe que nao tem. tah em falta. e ela liga? nem. prefere aquele e pronto. simples assim.

e quem vai faze-la entender?

ninguem. porque isso nao se entende. soh nao vah fazer papel de boba, de novo. eu sei. sei que faco. mas quem vai notar? quem?

queria ser mais forte.

terça-feira, junho 06, 2006

e quando a vontade vem? e quando a unica coisa que lhe soa pertinente eh gritar? e quando a unica vontade que lhe resta eh encolher-se? e quando as suas palavras parecem vagas? e quando seu sorriso parece vazio? e quando as suas questoes pulam da boca num murmurio mudo? e quando barreiras se erguem? e quando os olhos nao enxergam? e quando os sonhos perdem a cor? e quando o abraço envolve o ar? e quando a ausencia pesa? e quando o nada se faz tudo? e quando se descobre que o tudo eh nada?

e quando ela chorar, alguem vai ouvir?

sentir-se assim eh frio. sentir-se encolhida machuca. como eh ruim afogar-se no ar. como eh ruim pensar no infimo que se faz. pensar que um sentimento. um soh sentimento. dois talvez. ela nao sabia. soh queria entender. como sempre. queria entender. entender. ela achava-se tao menor. de novo. tao pequena. tao efemera. tao volatil. tao estupiadamente pequena.

palermamente emocional. bestiamente sentimental. retardamente insensivel. ela sabia. sabia disso. sabia que era horrivel. que fora amavel. que era detestavel. que fora querida. formas distorcidas do passado. fora? era? eh? presente nao lhe agrada. sonhadora demais pensando no futuro. sofredora demais apegando-se ao passado. momento a gente vive. vida a gente controi. contrucao a gente faz. fazer a gente deixa pra depois. ela nao vive o agora. tem medo. enxerga pra tras. escuta com atraso. age tardiamente.

presa na rede das superficialidades. tao futeis perto da profundidade da sua personalidade. tao pasmalhamente raso. tudo tao vazio. ela tao complexa. tao errada. tao confusa. tao cheia de tudo. tao cheia de nada.

sorrisos passageiros, caminhos perdidos, rotas alteradas.
felicidade quebrada, fatos mal-ditos.
amor verdadeiro?

sábado, maio 20, 2006

sambando errado

entao. sabe aquela sensacao de sempre estar perdendo alguma coisa? ou entao aquele gostinho de sempre estar fazendo errado? e aquele desgaste de fazer o que voce sabe melhor: nada. bom, nao exagero, eu faco algumas (poucas) coisas.

a pior sensacao dessas aih, talvez nao seja nenhuma. talvez a pior seja a frustracao. a que vem me soprar aos ouvidos de noite. que me faz prometer mundos e fundos. "amanha vou ser melhor". "amanha vou fazer isto, aquilo, aquele outro e da melhor maneira possivel". que bela tratante de consciencia me saio. de verdade. falaciante-mor. prometo todo dia ser melhor. mas parece que as promessas simplesmente morrem enquanto durmo. ou talvez eu esteja num estado tao ebrio de razao que elas fluem e pronto.

eu tento me auto-argumentar. que porcaria. me condeno, depois eu mesmo faco o sacrificio infimo de me auto-inocentar. nao que eu seja realmente inocente. nem que eu seja realmente culpada por tal desvio de moral. soh acho que devia me cobrar mais, empenhar-me mais? a-ham.

e como aquele fumante que jura-por-deus parar amanha, como aquele acima do peso que promete ateh seu ultimo suspiro começar o regime assim que acordar; eu assino embaixo. sei que nao vou fazer. mas sao as falsas promessas que me fazem querer ir mais longe.

e "pra ser sincero e muito claro, pra confessar que andei sambando errado, talvez ateh precise tomar na cara, pra ver que o samba tah bem melhorado" parafraseando chico, eu digo: na verdade eu nunca soube sambar.

quarta-feira, março 15, 2006

faz um certo tempo que tenho notado que escrever o que nem eu entendo me alivia. eu gosto. palavras sao confortantes quando voce nao tem (ainda) estreitos lacos de amizade.

mudar eh dificil. eh trabalhoso. exige disposicao pra comecar daquele inicio. pra falar daquelas coisas. pra esbanjar explicacoes sobre voce; e se admirar fazendo algo que ateh tinha esquecido que um dia fez. ah, comecar. comecar me soa tao doce. doce como uma bala que voce nunca experimentou. a sensacao eh a mesma. todas as vezes ela vai lhe parecer diferente, mesmo senda a mesma. porque comeco eh promessa. promessa eh esperada. eh sentida. eh idealizada ao ponto de sentir gostos que nao existem. de imaginar sabores que nao tem. de ver cores no preto. de ver esperanca no nada. de ver expressao no mudo.

eu sei. ah eu sei. sei que metade eh fantasia. que metade eh confete. que metade eh sonho. mas sempre que eu penso se fiz certo, se eu estou no lugar certo; eu lembro. lembro da escolha que eu fiz. ou melhor. da escolha que eu nao fiz, mas para que ela se fizesse. e eu calei. e eu esperei como quem espera um teste de gravidez. vida nova? vida de sempre? eu tambem fiz planos. pros dois casos. eu tambem tentei imaginar o que seria, e o que nao seria. e fiquei confusa. e disse "sim" e disse "nao". talvez, tantas vezes que deixei pra ser. o que seria, foi. e eu tomei isso como certo. sedenta pela mudanca que eu sabia q viria. tanto lah. tanto aqui. agora nao me cabe mais duvidar, nem julgar. a vida eh. a vida vai. presente, futuro, passado...tudo segue um curso, meu bem. voce vai seguir o seu. entao soh seja. soh viva. soh deixe que aconteca. nao apresse o que voce nao pode controlar. nao corra pra onde voce sabe que nao pode ir. fique. seja, meu bem, seja.

domingo, março 12, 2006

[menino do jeito assim]

olhar de quem vai longe
jeito de quem nao tah nem aih
um dia eu te pego, meu bem
quero ver daih

voce sabe o que eu quero
e eu sei o que voce quer
vem dancar comigo hoje,
mas nao uma musica qualquer

quero aquela que voce esconde
bem no fundo dos seus vinis
aquela que voce danca o tempo todo
mexendo assim os quadris

deixa de manha e vem comigo
nao me maltrata assim
um dia as coisas mudam
e seu ego preto e branco vai lembrar de mim

entao vamos soh mais uma vez
pode ser sua ultima chance
poe seu tenis velho, aquela calca desbotada
e me olha assim, de relance

vem de cabelo baguncado,
querendo ser feliz
porque eu quero voce inteiro,
do jeito que a vida um dia quis

e quando a noite acabar
eu vou saber, meu bem
atras da pose de menino despojado
um coracao bate tambem.

[bloh.]

quarta-feira, março 01, 2006

[tedio]

incrivel como algo inutil como o tedio pode incomodar. incomodar demais, por sinal. porque tedio eh assim. nao doi. nao pesa. nao machuca. inutil mesmo.
esse eh o tedio: uma bola que nao quica. um carro que nao anda. um doce sem gosto. e deve ser exatamente por isso que ele irrita tanto. porque eh insosso. porque eh transparente. porque ele eh, obvio, nada! e praticar esse esporte "tedio" tem sido cansativo. tedio maratonista. se toda essa forca tediosa fosse convertida em algo produtivo, meu amigo...eu acho que teria superado picasso. mas, como eu sou incapaz de canalizar a força maior do tedio, cah estou, meu amigo, superando somente o mendigo da esquina... logico, pelo menos eu levanto pra ir comer, nao fico soh ali parada esperando que me joguem alguma coisa.
a decadencia humana eh fascinante.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

voce vive numa queda livre. como se caisse num poco muito fundo. queda pra-sempre. queda monotona. queda que cai sem saber. escuro que olha e nao ve. vida que passa sem passar. horas que se arrastam. dias que se arrastam. tedio.
entao voce encontra o chao. o chao que queria achar. o chao que pedia pra ver. o chao que era tao interessante. aquele chao que seduzia. o chao que prestava. o chao esperado, amado. o chao que era tao-melhor que tudo.
e voce vai de encontro ao chao. e choca-se num baque surdo. a dor pesa. e jah nao sente mais o vento. e jah nao sente mas vontade. decepcao.
aih voce enxerga. aquele chao era nada. era duro. era frio. era pesado. era nada. era nada. e aquela ilusao do melhor. aquela estupida ilusao do que era tao-melhor, escorre por entre as frestas. dissolve. some. deixando um espaço pra outro sonho vago e colorido entrar. o sonho de cair. cair pra sempre. cair. tao-melhor.
somos todos paspalhos de marca maior.

sábado, janeiro 28, 2006

sabe aquela vontade que eu falei? pois eh. sumiu. mas eu acho que volta, ou nao. bleh.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

[resolucoes e resultados]

a sensacao de dever cumprido eh realmente satisfatoria. um dever cumprido. o maior deles, alias. mas eu paro e penso. eh esse dever que eu quero? nao vou mentir. quis (e muito). porem, vou mentir se disser que, atualmente, meu dever segue essa linha. porque nao segue. o outro dever eh mais subjetivo. cansei de ser objetiva. fui um ano inteiro objetiva. deu certo? deu. mas quando se trata de sentimentos, ser objetiva eh ridiculo. tao ridiculo quanto esse dever que anda a atormentar minha cabeca. tao ridiculo quanto a minha vontade dilacerante de ver seu sorriso plantado na minha frente. tao ridiculo quanto a minha espera. nao devia esperar. mas eu nao consigo nao-dever. porque eh exatamente esse meu dever. pensar em voce. pensar no que nao aconteceu. pensar num jeito de te ver ali. alcancavel. paupavel. perto. e que estupida eu sou. eu posso querer. eu posso tentar. eu posso me iludir. mas te controlar, jamais. e isso me irrita profundamente.
quero brincar de marionetes. quero sentir o prazer de mandar. quero sentir o que nao se sente. quero experimentar o que nao se experimenta. quero entrar num caminho novo. quero me perder no nada. no infinito. e sem rodeios: quero dancar eh no seu pensamento, e ponto final.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

[sonhos]

o mesmo conforto quente e aconchegante. os mesmos sussuros leves. o mesmo toque dilacerante. a mesma sensacao vazia que descreve tudo. os meus sonhos estupidos que trazem voce pra mim.

terça-feira, janeiro 17, 2006

[mais]

Vou gritar ateh nao conseguir mais. Quando cansar, vou socar o travesseiro ate nao querer mais. Quando enjoar, vou ficar quieta ateh nao querer mais. Quando resolver, vou chorar ateh nao querer mais. Quando desistir, bem, daih, sem mais.