sábado, fevereiro 26, 2011

Presente na porta

Era um dia mais que especial. Era um dia daqueles que custavam a chegar. Dias ansiosos, cheios de risadas, abraços - dias de festa. Ela treinava o sorriso no espelho do quarto, tentando achar o ângulo mais bonito. Depois falava uma frase qualquer, só pra ver se a maquiagem não iria borrar. De repente, ainda em frente ao espelho, ela parava um momento para se encarar. Meio sem jeito, corava de vergonha. "Onde já se viu?" - ria-se - "Só eu pra pensar que a gente pode ensaiar a vida". Então, ela ajeitou o vestido de flor, olhou-se pela última vez e, decidida, deixou o quarto.

Ela veio caminhando apressada pelo corredor. As sapatilhas fazendo barulho na madeira imitavam a frequência cardíaca - coisa de gente apaixonada. Seguiu para a sala. Podia jurar que, por detrás das portas, ouvia gente sorrindo, conversando sobre qualquer coisa. A ansiedade de viver aquele momento a sufocava na boca do estômago. Tentava se acalmar sozinha, repetindo-se que aquele dia não era o dela. Achava-se boba por um instante. Se aquele realmente fosse o seu dia, ela não estaria nervosa assim. "Mas aí que está. Hoje não é meu dia, não. É o dia dele". Era o dia dele.

Outro riso sozinha - às vezes era egoísta e guardava aqueles pontinhos luminosos de alegria só para ela. Ainda sorrindo, resolveu pensar em um presente. E teria que ser inesquecível, disso tinha certeza. Não sabia o que comprar - até porque o que ela queria, não se vende. Queria um momento de paz, outro de plenitude, um tantinho de sucesso e um montão de amor. Poderia juntar isso tudo e entregar numa caixa embalada com fita, talvez. "Sim, sim, parece bom!" - exclamava-se. Ninguém faria melhor, ninguém. Então, ela colocou a caixa debaixo do braço. Conferiu mais uma vez o vestido. Respirou de uma só vez - estava na hora de ir. Estava na hora de dar tudo isso a ele.

Quando levou a mão ao trinco da porta, sentiu um aperto no peito, uma sensação de que esquecera de alguma coisa. Ela pôs a caixa de lado e correu até o quarto. Em frente ao espelho, as mesmas flores rosas e o batom sem borrar. Encarou-se por alguns segundos até seu reflexo lhe dar a resposta. Para onde ela iria? Às vezes era acometida por esses lapsos de ingenuidade - como se fosse encontrá-lo por ali, logo ao abrir a porta. A realidade era dura e, de vez em quando, surgia no sonho para lhe açoitar. Os olhos dela se encheram de lágrimas rapidamente e, antes que pudessem correr pelo rosto, a pobre já havia sentado no chão. Por um momento quis que o dia acabasse ali. "Longe dele parece que as coisas não importam muito" - argumentou-se.

Com o peso da saudade nas costas, ela fitou os pés por alguns minutos. Nessas horas gostava de retomar o sorriso dele, os jeitos dele, a presença dele. Pequenos flashes de felicidade passada, mas que valeriam por toda a vida. Confiante das lembranças, ela levantou e foi até seu reflexo. Esquecendo de todo o resto, começou assim - "Se foi você quem me acordou, então pode ser o mesmo a levar meu recado. Diga a ele que o espero de vestido florido. Diga a ele que tenho um presente na porta. Diga a ele que tenho beijos e abraços guardados. Diga, diga que tenho lágrimas por vir, sorrisos para entregar, palavras por dizer. E, diga, por favor, que o amo com a força de tudo aquilo que espera sem sair do lugar".

Com a mão esquerda ela esfregou os olhos. A maquiagem foi parar na bochecha e, pela primeira vez, ela não se importou. Outros olhos estariam lá no lugar dela. Suspiro com pontinha de dor. Apesar de tudo, ela ainda tinha outros motivos para sorrir - um grande motivo para sorrir: era o dia dele. E, por ele, ela poderia encarar o espelho e dizer - "quem ama, entenda de uma vez por todas, faz assim".

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Recado aos amores

Amores,
não sei há quanto tempo ensaio escrever este texto pra vocês. Nada do que eu escrevia parecia bom o bastante – e, no fundo, eu sei que nunca vai ser. O recado que eu vou dar é este daqui: a partir do dia 28 de fevereiro não farei mais parte da equipe Luan Santana e da Central de Fãs. Calma. Antes de qualquer suspiro de surpresa, eu explico melhor: estou saindo por minha escolha. Como já contei pra vocês (e vocês até torceram comigo!), vou fazer meu mestrado em Comunicação. Meu sonho e meu objetivo maior sempre foram seguir a carreira acadêmica, ser professora mesmo. Eu sempre pensei em todos os professores que mudaram a minha vida e queria ser como eles – ensinar a ver o mundo de um jeito diferente, fazer a diferença, aprender lecionando. Mas, eu mal desconfiava que, antes mesmo de ser professora, eu poderia, sim, fazer a diferença na vida de muita gente e aprender ainda mais com isso.

É, amores, vocês foram a surpresa mais doce e brilhante da minha vida. Nunca imaginei que, um dia, poderia ter tantos sobrinhos e sobrinhas espalhados por aí. E mais: nunca imaginei que pudesse haver um amor tão grande, um carinho tão grande, capaz de me fazer sorrir até nos dias mais difíceis. Como poderia e como pode alguém ganhar um presente tão bonito feito esse? Agradeço a Deus todos os dias por vocês, pela oportunidade que Ele me deu e peço para que eu seja capaz de sempre retribuir à altura. Pois é, vocês me ensinaram que não precisa muito para aprendermos – às vezes basta ouvir o coração. E é ouvindo meu coração que eu sigo atrás do meu sonho. “Só quem sonha consegue alcançar”, não é? Pois aqui vou eu lutar por aquilo que acredito.

Fico feliz por batalhar por aquilo que quero, mas triste porque sei que, enquanto lerem esse texto, vocês também possam sentir o mesmo aperto no peito que estou sentindo. Por favor, amores, quando lerem tudo isso daqui, sorriam! Sorriam porque é assim que quero sempre vê-los – amando, em paz, completos, felizes! Não estou pra sumir nem pra abandonar ninguém, só estou partindo para uma nova fase da minha vida – e, com certeza, vou levá-los comigo. Daqui há 30, 40 anos, vocês ainda serão meus amores, meus anjos, minhas estrelinhas. Porque é assim, quando amo uma vez, amo pra sempre.

Não sei se cabe um pedido, mas se for pedir, peço que Deus abençoe a vida de cada um de vocês. Cuidem-se e tenham juízo, viu? Vivam cada dia, pulem, gritem, amem. Amem muito.

Quanto a esse amor lindo de fã, quero contar uma história. Um dia amei alguém demais. Coisa de cinema, de conto de príncipe e princesa. E eu era tão feliz assim. Sorria só de pensar nele e me sentia bem só de ouvir a voz. Mas, um dia, sem entender direito, Deus quis que meu príncipe fosse sorrir pra Ele. E pronto, ele foi e eu fiquei – só pra aprender a lição mais preciosa do mundo: amor não tem medida, não tem posse, não tem preço e, acima de tudo, não tem distância. Vai ver por isso de eu amar tanto vocês. Vejo em cada um, um pedaço dessa lição, uma prova de que, sim, Deus sempre é maior e o amor também. E, se me permitem ensinar alguma coisa para vocês, que tanto me ensinaram, não sofram pela distância – amem mais e vivam. Tenho certeza de que a vontade do Luan, assim como a minha, é ver que todos vocês estão bem, rodeados de amigos, rindo por aí. Então amem, meus amores, amem e não esqueçam de que amar vocês mesmos também é muito importante.

E, é claro, não podia deixar de agradecer ao Luan e a todo mundo do escritório. Foram 7 meses incríveis ao lado de pessoas incríveis. Obrigada por terem acreditado em mim e por terem me dado essa oportunidade tão especial. O que vivi aqui vale pra vida inteira. Tenho certeza que a carreira do Luan só vai crescer mais e mais – pessoas humildes, honestas e boas como ele merecem o que há de melhor nessa vida.

Quem conseguiu chegar até aqui, no final desse textão, muito obrigada! Obrigada por trazerem mais luz a minha vida. Por me fazerem sentir especial. Por me fazerem acreditar que só quem sonha consegue alcançar. Também aproveito e peço desculpas se magoei alguém ou se não fui capaz de ajudar quando me pediram. Cada lágrima de tristeza que derrubavam, juro, doía em mim.

Se meus braços permitissem, daria um abraço forte em cada um, mas, como ainda não aprendi a voar, peço que sintam-se todos abraçados. Que o peso do “eu amo vocês” seja suficiente para afagar cada rostinho e leve o bastante para fazer coçar o nariz e arrancar um sorrisinho surpreso. É, amores, eu amo e vou amar pra sempre vocês.

Fiquem com Deus. Quando precisarem, estarei sempre à disposição, de plantão e de coração. E se Deus quiser, ainda vou ser professora de muitos de vocês! Nos vemos por aqui, por ali e pro futuro, combinado?

Um beijão enorme da Tia Ju.

domingo, janeiro 23, 2011

A volta do que não foi

"Memória,
te escrevo para dizer que, trágico assim, foi o momento que te perdi. Te escrevo para que, em algum momento, volte para casa para me dizer exatamente o que aconteceu. Sei que andei falando mal de nós por aí. Sei que errei quando quis por a culpa toda em você. Mas acontece que me magoei. Me magoei como sempre. Como você sempre soube e me alertou. Me magoei porque você teimava em me mostrar o que não queria ver. Por me lembrar das minhas fraquezas, das minhas ilusões, da vida que tenho, te mandei embora. Volta, por favor. Volta que minha vida sem você é mais difícil. Volta que, sem você, não tenho mais motivos para lembrar.
Ainda choro pelos mesmos fatos, pelos mesmos casos, pelos mesmos erros. Você foi, mas nunca te deixei ir na verdade. Essa pose de desmemoriada não combina comigo. Sou boba demais para fingir, e todos nós sabemos disso. Às vezes me faço de forte para impressionar não sei a quem. Sei que não engano e você é a única que me conhece por completo. Volta para casa. Volta para mim. Não quero esquecer mais. Não quero fechar os olhos e dormir sem lembrar. Choro por mim e por você. Choro por saber que a vida é cruel e as lembranças também. Mas o que a gente faz todos os dias, senão viver? Então vivo e quero lembrar. Vivo e quero sentir o gosto amargo de uma rejeição qualquer. De qualquer ignorância de sentido. De qualquer desilusão sofrida e sem coração.
Não sou de canalhice, você sabe disso. Não sou de fazer falsas promessas, mas de acreditar em qualquer coisa. Eu devia acreditar só em você, agora eu sei. Volta para gente tentar feliz."

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Só ela

E lá estava ela. Só ela, sorrindo pra si mesma. De novo ela sentia aquele mesmo aperto no coração, no peito, no estômago - qualquer coisa assim. Suspiro de medo misturado com expectativa. "Quero amar" - repetia-se, "quero amar". Amante, sempre fora. Daquelas que perdem o fôlego e os sentidos. Daquelas que ficam cegas de vez em quando e resignadas a qualquer atenção a mais. No fundo, ela sabia, "sou boba" - confessava-se rindo. Era boba, quem poderia dizer? Era boba nas bobagens e boba no que fazia. Era boba por amar e por viver bobamente amando. Não sossegava até achar um novo alvo pra mirar, um novo coração pra desejar, novos olhos pra chamar de seus. Pobre criatura a amada, talvez nem fizesse ideia que já fosse tamanho destino de tanta admiração. Pobre criatura, perdeu-se quando deu aquele sorriso sem jeito. Perdeu-se quando olhou pros olhos sedentos dela, sugando tudo, amando tudo, guardando tudo. Não lembrava direito dos detalhes - estado ébrio de espírito de qualquer amante patológico - mas sabia que ele a fitava sem parar, sem parar. Olhos pequenos e mudos. Confissões ao pé do ouvido que agora não faziam muito sentido. "Te amo" - gritava-se - "te amo" - estranhava-se. Passou da idade de querer alguém tanto assim. Passou da idade, "passei da idade" - justificava-se.
Sopro de juventude, era isso que faltava a ela. Sangue correndo nas veias, sofrer por amor, choramingar pelos cantos, sorrir pro mundo. Só era feliz assim, a pobre. "Só assim, meu Deus, só assim". Perguntava-se sozinha toda noite se ele ouvia o quanto pensava nele. Se ele via todos os castelos e pequenos momentos que já havia desenhado. "Como pode alguém querer sem pensar se o outro quer? Como pode tanto amor gratuito por migalhas de esperança?" - de vez em quando ela mesma se castigava. Mas depois sorria - nasceu com alma de romântica. Nasceu assim.
Então ela fechava os olhos devagar e se permitia sonhar um novo momento. Novas frases, novas atitudes, novos sorrisos intencionais. Desenhava um futuro seguro, um amor divertido, dias e noites de gargalhadas. "Quero amar" - e pronto. Nova culpa adquirida, novo amor pra se ocupar. "Volta" - surpreeendia-se. Queria que ele voltasse pro mesmo instante daqueles olhares, pro mesmo instante de surpresa, de magnetismo, de qualquer clichê de amor à primeira vista. "Volta" - finalizava. Porque no final ela sabia, ninguém vai embora pra nunca mais, nem volta pra sempre. Pobre amante, pobre coração. Queria amar, queria amar. "Quero você" - e a sentença final. Ela queria, ela não podia, mas amava.

domingo, janeiro 02, 2011

Olhos castanhos rasgados

Olhos castanhos rasgados. Faz tanto tempo que ensaio pra lhe escrever de novo. Às vezes sinto que me faltam as palavras - parece que já lhe contei tudo, que esgotei meus sentidos e minha criatividade. Fico com medo de que as frases não combinem e nem se encaixem. Fico com medo de que leia e pense que mudei tanto assim. Não mudei, olhos castanhos, juro que não. Ainda sou a mesma amante boba dos tempos das tardes de sol. Das noites de lua e das risadas por acontecerem. Ainda sou a mesma. Entenda, não é porque não lhe escrevi antes que deixei de lembrar. Lembro de você todas as noites, naquele exato momento entre razão e devaneio, na fuga dos pensamentos, na porta de entrada do sono. Lembro de você pra suspirar como sempre fiz. Lhe encontro sempre me sorrindo. Aliás, há quanto tempo deixei de lhe ver nos nossos encontros secretos? Não lembro mais. Sei que a vida segue muda, olhos castanhos. Sei que o tempo passa mesmo quando pedimos para não passar. Sei que envelheço a cada dia - e com a maturidade vem a responsabilidade, a rotina, o desprazer de viver todos os dias como se cumprissemos apenas uma tarefa. Escuta, olhos castanhos, quero lhe dizer que não lhe esqueci. Quero dizer que a vida pode seguir o seu curso, posso não ser eu mesma, mas as suas lembranças estarão aqui. Marcadas feito fogo, no mesmo lugar que escolhemos pra guardar tudo aquilo que nos quer bem. Fiz questão de ter seus olhos pra mim. Fiz questão que todos os outros olhos olhassem assim, feito intriga, feito surpresa, feito curioso pra saber - que seus olhos foram meus e eu fui toda de você.
Não sei se ainda lê o que lhe escrevo, também não sei se ainda escuta o que lhe digo, mas eu sinto saudades, olhos castanhos. Um dia ainda vou te cruzar nos mesmo olhos que te trouxeram pra mim.
 

segunda-feira, novembro 08, 2010

Olha

Insônia de uma noite quente. Os olhos cansados de trabalhar, de ver, de apurar todos os detalhes. Vivo com os olhos e não tenho vergonha de admitir. Sorrio com os olhos como nos poemas mais clichês. Coço os olhos com força quando tenho que coçar e os derramo em lágrimas sempre que o coração assim pedir. Olho coração - sabe quando vê algo que gosta, pisca quando não acredita e se fecha quando não quer olhar. Olho feito pra ver, feito pra encarar. Olhar de relance, olhar de mentira, olhar de qualquer coisa. Vivo para enxergar e enxergo para viver. Não escolhi assim, me fizeram assim - nos fizeram assim. Escravos dos olhos, inimigos do escuro, medrosos da cegueira.
Vivo na cegueira porque enxergo demais. Vivo com os olhos porque aprendi a sincronizar com o coração. Mas que fim de mundo, olhar desse jeito. Os olhos não foram feitos para sentir. Por que olhar para o olho que, muitas vezes, não olha pra nada? Olhos sedutores, olhos gulosos, olhos mesquinhos. Não quero viver do olho, não quero. Me ensina a ver com os olhos fechados - ou me ensina a amar, acima de tudo, de olhos bem abertos.

quinta-feira, outubro 21, 2010

Saudade

Saudade do tempo que não foi. O momento exato não sei dizer, somente tenho comigo a vontade funda de escrever. Escrever me arrepia. Escrever me faz viver um pouco mais. Há quanto tempo que não tenho o que dizer. Há quanto tempo me deixei levar pela rotina surda das coisas que devemos fazer. Há quanto tempo deixei de notar que o destino - implacável - está por aqui, não sei se rindo, não se cobrando, mas vivendo por todos nós. É, nem sempre os dias são de paz. Nem sempre a noite vem calma. Zumbido surdo, vontade torta, amor demais. Vivo porque amo. Choro porque quero, porque os olhos quiseram assim. Penso, penso e chego a conclusão que a vida é mesmo volátil. A fragilidade me assusta, me traz qualquer melancolia. Qualquer impulso de hesitação. Que exemplo tenho pra dar? Que amor tenho pra dividir? Ter razão, ter sentido, ter palavra, ter poder. O que, enfim, queremos ter? Onde queremos chegar? Onde quero chegar? Não sei, juro que não sei. Será que somos, será sou tão frágil quanto a vida? Será que sou sempre a mesma criança que não se reconhece no espelho? De medo, desvio o olhar. Estranheza de se ver. Estranheza de se encarar. Arrepio de sensações antigas, conflitos passados. Ainda sou a mesma. Ainda me carrego na alma. É saudade do tempo que não foi, definitivamente.

sábado, junho 12, 2010

Amante

Alguns momentos sempre são únicos. A tomada de decisão, a escolha do caminho, um sorriso sincero. Queria que esse momento fosse meu, mas não é. Queria poder parar o tempo, congelar os minutos na felicidade honesta de quem ama. Por que a vida é um insistir em mudanças? Por que essa necessidade cega de alterar a rota, de desviar para o atalho, de se perder num lugar onde não se tem mais caminhos? O que me espanta nisso tudo, digo com clareza e repito, não tenho o momento, não tenho a decisão, estou despida de qualquer tipo de poder. Estou à revelia. Me arrastam para onde não queria ir, me cobram por uma dívida de nunca pensei ter. Qual o risco de ser tão humana? Qual o tamanho da misericórdia? Qual o preço de uma redenção? Como se muda o que não se sabe? E mais, como se julga o que não se entende? Nas tantas perguntas que me lançam a essa confusão que é viver, me sinto atordoada - de corpo e de alma. De que adiantaria sorrir pela metade ou aceitar o que se nega? Por que precisamos re-amar o já amado, viver o já vivido, questionar o inquestionável? Não preciso, sinto em mim. Não preciso, grito por dentro - cólera puramente humana. Raiva que vem daquele fundo inteligível de tudo que respira.

Qual a taxa de cobrança da felicidade? Não quero viver no aqui-se-faz-aqui-se-paga. Não quero seguir aos trancos. Não quero cair, não quero hesitar. Custa dizer que só quero ser feliz? Custa dizer que, se pudesse, viveria só de amor? Quanto custa? Muito custa. Custa o preço do sacrifício, a dor da ausência, o desejo reprimido. O amor amordaçado, as mãos atadas, o eterno "quero ir, mas não posso". O para sempre "eu não devo". Não posso, nem quero, admitir a crueldade do que segue. A brutalidade da procura pela certeza. A sede rude da superação. A dor amarga de ser assim - pequena, pulsante, amante em todas as palavras.

segunda-feira, abril 19, 2010

Coisas

"Quando as coisas acontecem?" - perguntou com aqueles olhos enormes.

Não sei, quem sabe nem aconteçam, ela pensou. Quem sabe elas nem existam. Porque eu invento as coisas, entende? - insistiu. Mas como ela contaria algo assim para a outra? Capaz de destruir os sonhos da coitadinha. Tão cheia de vida, tão grande naqueles olhos maiores ainda. Não sei, querida. Por que não deixa que elas aconteçam sozinhas? Teria resposta melhor? Não, não, senhor. Não teria. E ela nem precisou inventar outras coisas. Colocar mais coisas nas coisas que já existiam. Não, não - repetia-se. Negar tanto era a forma certa de afirmar qualquer mentira.

Então o desgosto da outra. Aquela expectativa reprimida, aquele dia que não passava. Como poderia mentir daquele jeito, ser dissimulada daquela maneira?
"Já sei, você não gosta de mim. Só quer que as coisas venham logo e me decepcionem. Você não quer me ver crescer. Egoísta. Eu sei dos seus planos, mas dessa vez não vai me enganar tão fácil assim. Quando as coisas acontecem?" - disse chacoalhando os braços pra lá e pra cá. Seu jeito de ganhar o ambiente. Expansiva.

O que ela quer? Como pode julgá-la dessa forma? Dissimulada? De novo? E pra onde foram seus esforços? Pra onde foram todas as coisas que ela inventou? As coisas que ela fez acontecer? Será que não vê? Será que não? Suas negações veladas, sua alegria sem limite, seu amor sem medida? Ou ela não percebia que a vida era assim, cruel nas sutilezas, terrível nos detalhes? Que mundo ela quer pintar dessa vez?

"Me diga, vamos, quando as coisas acontecem?" - repetiu.

Acontecem quando a gente quer.

"Mentira. Eu quero agora e elas não acontecem".

Então você não pediu direito.

"Mentira. Pedi, sim".

Então não fez tudo que podia.

"Mais mentira ainda. Você sabe que eu fiz".

Aí o jeito é se calar e esperar. Não vou responder o que não posso saber. Nem inventar um futuro para viver. Acabaram. Acabaram as coisas, entendeu?

"Quer dizer que elas não vão mais acontecer?"

Não.

"E vou fazer o quê, agora?".

Viver, minha pequena, viver.

Ela, então, contrariada com o que acabara de ouvir, revirou-se na cama. Fechou os olhões e resmungou qualquer nome feio. Brigar com a consciência era sempre perda de tempo. Dormiu, finalmente.

sexta-feira, abril 16, 2010

Pequenas coisas têm um grande potencial de arruinar seu dia.
E, pequenos gestos, de alegrar sua tarde.

quarta-feira, março 24, 2010

Tristeza

Tristeza é um sentimento fundo. Um incômodo que vem do estômago e se espalha pelo corpo. Uma dorzinha que não dói. Uma vontade de chorar sem motivo. Um meio-sorriso amarelo e uma dor de cabeça de remorso. Tem dias que me sinto reprimida por mim mesma, triste por me encontrar assim, tão frágil e insegura. Sei que tristeza é feito onda, que logo vai embora - mas que também puxa pro mar. Se pudesse, hoje sentaria num lugar qualquer para pensar em coisa alguma. Me sinto triste e viva. Triste e amando. Às vezes é puro egoísmo, às vezes é pura carência, mas tem dias que tiro para me sentir assim, no topo das coisas, preocupada demais com o meu umbigo. Na verdade, o que espero é que alguém, num pleno momento de percepção exacerbada, me roube um instante.
Você tem um instante pra mim?

segunda-feira, março 22, 2010

Voltar

Estanho esse negócio de voltar, porque parece que a gente só volta quando não tem jeito mesmo. Acabou o dinheiro, deu saudade, nada deu certo, se perdeu no caminho. Tirando o "deu saudade", voltar parece coisa de derrota, aquele momento exato antes do "eu não disse?". Ou, como diria o meu irmão, o "big FAIL" estampado na testa. Mas, voltar nem sempre precisa ser tão dramático, afinal, algum dia todos temos que admitir que erramos, que perdemos o caminho ou que precisamos de colo. Eu não sei se errei, mas que perdi o caminho, perdi (faz dias que tentava lembrar a senha daqui e nada). E também senti saudade, parece besteira, mas senti saudade de mim mesma, da Juliana que escreveu por aqui e que, romântica profunda, quase sempre fala de amor. Se ela vai me dar colo, não sei - até porque essa coisa de escrever na terceira pessoa é muito brega. Não vou me dar colo, não. Quem sabe um tapinha nas costas, um sorriso de incentivo e uma cobrança de resultados. É, crescer deve ser assim sofrido, suado, confuso e amargo. Já que eu ainda tenho tanto para aprender e muito para buscar, por que não voltar de vez em quando? Cada neura vivida, uma linha a mais. E, se nada der certo, deixo aqui registrado: eu não disse?!

sexta-feira, junho 06, 2008

insegura

Insegurança, é essa a palavra. Estou insegura. Não, não com relação às minhas responsabilidades, aos meus deveres, às minhas obrigações. Não, não no que diz respeito à minha vida, às minhas decisões. Não. Simplesmente estou insegura. Insegura comigo. Hoje me permito ser sincera e hoje confesso: se me encontrasse comigo, não sei se me daria a mão.
Entenda como entendo e me veja como me vejo. Não sou o tipo de pessoa certa, não, não, não sou o tipo de alma fincada ao chão, forte, sólida, capaz de tomar as melhores decisões, capaz de indicar os caminhos certos. Não, não. Não sou assim. Sou solta, vôo fácil, me perco sem sair do lugar, tenho medo de trilhar os passos errados, tenho medo de seguir, tenho medo de hesitar.
Não, não pense que esse envoltório fútil, que essa expressão de segurança, que esse sorriso convincente, não, não pense que tudo isso é verdade. Não me tome como alguém de passos firmes, não me coloque na lista daqueles que você recorre atrás dos melhores conselhos. Não.
Sou fraca, sou covarde, sou insegura. Preciso de atenção, preciso de cuidados, preciso que me amem e que me falem palavras bonitas. Não me basto, não me completo, não me gosto sozinha. Preciso de muletas, preciso de momentos doces, precisos de ilusões, de delírios, de realidades utópicas forjadas tão bonitas naquilo que eu quero que aconteça.
Então não me deixe ir, me impeça agora, no começo. Me segure, me prenda, fuja, me large numa esquina. Faça qualquer coisa, mas me deixe sozinha. Não permita que eu te faça de espelho, que te faça de chão, que eu faça de você todos os motivos, todas as palavras, todos os suspiros e todo o amor. Proiba, me barre, me empurre, faça por mim, por mim. Me dê um choque, um baque, me atire da janela, me tranque para fora e troque a fechadura. Por mim. Para que eu não sofra mais, para que eu não pegue um caminho que, eu sei, terei que trilhar de volta. Não deixe que eu me arrisque, que me eu exponha, que eu rasgue minha alma em algo que verá impaciente e indiferente minhas dores sangrarem mudas.
Se não sou capaz de me proteger, te peço por mim e pelo carinho que me tem - me expulse sem dó e me proteja dessa ameaça iminente que é minha vontade cega de me achar. De me achar amando, nem que seja por um segundo só, nestes teus olhos castanhos.
(E se no meio do caminho, eu te implorar por clemência, não olhe para trás. Só volte se sentir saudade, só volte se me quiser assim, do jeito que sou - torta e incompleta.)

sexta-feira, maio 23, 2008

não perder

Um dia estranho. E a estranheza, eu sei muito bem de onde vem. Só fico tentando descobrir porque tem que ser assim. Por que eu tenho que me apaixonar por cada detalhe de cada coisinha desse mundo? Por que eu fico tão alegre e tão segura quando recebo um segundinho de atenção sequer? Por que esse frio na barriga, essa ansiedade, essa tristeza repleta de impaciência? Por quê?
Na verdade eu adoro me sentir assim, sim. Eu gosto, eu quero isso. Eu não consigo me enxergar bem e plena de outra maneira. Eu não posso simplesmente conhecer, eu preciso amar, amar, amar cada pedaço, cada suspiro, cada gesto, cada sussurro fraquinho de uma hipótese que eu mesma crio. Sim, eu preciso acreditar, acreditar nas coisas que eu invento, compreende?
Porque expectativas, expectativas são como um veneno, tomam-lhe o corpo inteiro pra depois matar aos pouquinhos. Tão cruel, tão cruel. Tão cruel que eu me envenene dessa forma - e como uma dependente quimíca, procure em cada canto, cada rosto, cada olhar um novo motivo para me envenar novamente.
Me dói, e não preciso mentir, falar de amor como veneno. Me machuca, parece errado, não sei. Mas que outra palavra eu daria? Que outro nome chamaria sem trair tudo aquilo que eu sei que sinto, que eu sei que acontece e que eu sei que luto pra esconder? Sinto o coração pulsando alto e, como se bastasse pra enganar minha razão, encolho rápida os braços pra abafar aquilo que não posso controlar. É coisa de momento - já tentei me auto-argumentar. Mas que diabo de momento é esse que nunca acabou? Quando ele começou? - já nem lembro mais.
Que outra coisa seria, se assim, sem nomear, eu dissesse que me esfria o estômago, me tira a fome, deixa meus pés gelados, minha mãos trêmulas? Suo fácil, não consigo me concentrar, não consigo me conter, rompo em lágrimas. Me detesto em frente ao espelho, passo o dia esperando o barulho romper o silêncio e me roubar um sorriso. Mas um barulho só, só um, só aquele, só o dele.
Então não escuto, e o silêncio me traga feito uma maré. Fico triste, fico feia, fico perdida. De tão confusa quero sumir do mundo, passar uma temporada entre nada. Nada e mais nada. Não quero que me toquem, que falem comigo, que me perguntem qual o problema. Não, não quero nada. Fico amarga, fico cinza, vejo tragédia e afronta em tudo que ousa sorrir pra mim. Silêncio vil, silêncio egoísta, me fecho em meus problemas, em minhas esperanças falidas, em minhas doces mentiras que resolveram não se concretizar.
Aí sim, depois do veneno, a injeção letal de realidade. Sim, porque só ela pode fazer frente à essa insanidade que é se apaixonar - ainda mais por qualquer coisa. Cada gota dói na alma, na minha alma. É como se jogassem todos meus sonho pela janela, um por um. E eu que achava que eles pudessem voar - não, eles caem em baques surdos no chão, estilhaçados. Sim, porque eu tenho essa horrível mania de me condicionar em alguém. De escolher um par de braços pra daí atirar todas as minhas expectativas ali. Sou capaz de mudar todo o plano de vida anterior, só pra me adequar. Tão resignada, não sem rumo, tão suplicante.
Me envergonho, sim, me envergonho. Não é fácil admitir, nem me escrever que é assim que eu funciono. Mal juntei meus cacos já estou os atirando nas mãos de outro alguém. Não sei se julgo como covardia, se é desvio de caráter, se é fraqueza crônica, mas não sei viver sem estar amando alguém ou alguma coisa. Me sinto incompleta. Se não amo, sou vazia.
E esse amar é sofrido, é dolorido, me custa, me desgasta, me deixa assim - desse jeito - escrevendo aquilo que mal sei explicar. E não é a primeira vez, Deus sabe que não é. O que me mata é essa hipótese, essa vontade inexplicável de me escorar naqueles braços, como se eles fossem a resposta para todos os meus medos e os meus problemas. É que me assusta quando acho algo bom demais. Já perdi uma vez, perdi e me doeu muito. Perdi um pedaço inteiro de mim. E eu não quero perder de novo, por Deus, não quero. Então me atropelo nas atitudes, nos gestos - pura impaciência de querer viver tudo num dia só. E o pensamento insistente de que "e aí, vou estar aqui no dia seguinte?".
Se vou, não sei, ninguém sabe. E o medo não é de, de repente, sumir, mas é de perder de viver algo que eu sei que me valeria muito a pena.
Eu não quero perder. Não me deixe perder. Por favor, não me deixe perder.

segunda-feira, maio 12, 2008

bom dia

toda a indiferença de uma segunda-feira me faz pensar o quanto deve ser difícil - ou pelo menos parece ser - dizer um "bom dia, como vai você?". mas, às vezes, penso comigo, essa pergunta besta poderia ganhar o dia. e não é bem o fato de se preocupar, mas de saber que, de alguma forma - nem que seja a mais insignificante questão de educação - alguém se importa. eu me importo. e me importo muito.
pode dizer que é caso de orgulho, pode dizer que "sim, você estava certa, você é má". diga o que diga, nada vai me tirar essa pontada de vácuo que, pra mim, significa que a diferença de me importar tanto assim é diretamente proporcional àquela indifirença de segunda-feira. e sabe do que mais? ontem nem era segunda-feira, semana passada não era segunda-feira e a retrasada também. amanhã não vai ser segunda-feira e tudo vai permanecer como estava e como está: indiferente.
e isso me faz sentir ódio de mim mesma, ódio da situação e ódio de estar aqui reclamando disso. eu comigo mesma brigando com quem, eu sei, não vai sequer passar os olhos por isso aqui.
custa mostrar um pouco de compaixão, ahn? é tão difícil assim?
maldito destino de nascer desse jeito, amante sofredora do coração mole.
o raio que o parta.

quinta-feira, maio 01, 2008

mau

Às vezes me sinto mau. Mau, assim, com "u".

[Má por julgar. Má por injevar. Má por ser tão humana, tão cheia de carne, tão suja de sangue. Me falta a clareza do divino, a leveza da alma transparente e a bondade de um sorriso sincero.]

sábado, abril 05, 2008

sem título

Um dia azul, um sol amarelo, um frio branco e uma saudade cinza.

(A questão é que não consigo tirar das minhas idéias a impressão de que tudo é um fardo. Um fardo amargo de carência e saudade cinza. Os pensamentos mais vis e simples - são pura indefinição do que eu penso do que você pensa. Não sei o que te dizer, não sei o que te fazer, são sei como lidar. Estou esperando o telefone tocar, a televisão ligar, teu amor me sorrir. Sofro por ansiar, por querer me resolver, por querer te resolver. Não canso de dizer que me sinto fraca, as mãozinhas finas, os olhos fundos, as pernas frágeis. Ando como se ninguém me visse, sorrio por te querer sorrindo e canto porque acho que me escuta. Teorias bobas, tempo que se arrasta, sensação de liberdade assistida. Me escrevo e ponto final. Imagino que um dia você lerá tudo isso daqui, não entenderá uma frase sequer, mas saberá que todos os versos são pra você.)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

odiar

Às vezes fico pensando de onde vem tanta raiva. Aquele ódio profundo que cresce de dentro para fora. Que faz com que todo o resto perca a cor e sobre só isso: ódio. Um sentimento fundo, denso, opaco. Uma sensação de sufocamento interno, como se o próprio corpo se afundasse em sangue e o estômago pedisse para respirar. Estômago - devo ter perdido meus pulmões.
De onde a raiva vem, não sei dizer, mas os motivos poderia muito bem enumerar. Faz tempo que entendi que o ódio é um tipo de amor. Um amor que esqueceu de ser bom. Um amor mesquinho, egoísta, auto-destrutivo e, pior, rancoroso. Guarda tanta mágoa.
Guardo mágoa do que não fiz, do que não me fizeram e de, talvez, do que não vão fazer. É um ódio acorvadado, não quer arranjar briga com ninguém. Raiva contida, ranger de dentes, ansiedade - seja lá como o chamam por aí. E isso me perturba, me deixa irritada, me corrói por dentro. Sou capaz de armar infinitas respostas de supostas brigas que nunca vou travar. É puro egoísmo odioso.
Nunca me dediquei a escrever sobre o ódio, quase não vim. Não sei, me soa sujo, sempre falo sobre amor. Mas aí que tá, ódio também o é - e eu já me disse. E por mais que eu ache certo, sentimento como qualquer outro, ainda me soa sujo. Talvez apague tudo isso antes de publicar.
Não sei como vou vencer o ódio de hoje. Por vezes acabo usando açúcar, literalmente, ingênua. Outras vezes alguém me ganha - o ódio sempre perde fácil, mas também sempre volta. Insistente. Então não sei, não sei de nada. Estou chata demais pra mim, corrosiva demais pra escrever e confusa em excesso pra me explicar. Resumindo: estou eu e me odiando.
Amar é ingrato.

domingo, janeiro 13, 2008

egoísta

Não sei o que escrever, mas sei que preciso, sei que é o me falta.

A estranheza de perceber que alguém se deu conta do que me faz sucumbir por dentro me assusta. Não sei lidar com isso, não sei lidar com carinho, muito menos com amor. Amor dos outros. Me dilapidei de certa forma que sou capaz de sublimar, quase tocar, o mais perfeito dos sentimentos, as menores sutilezas dos meus sentimentos. E aí que está, não sei lidar quando vem de fora, quando as sensações vêm de fora, quando não vêm de mim. Fico perdida, não sei como agir. Me desarmam e não sei o que fazer. O tempo inteiro me exercitei pra parecer uma muralha. Não gosto de demonstrar o que sinto, não gosto de chorar na frente de alguém, odeio demonstrar fraqueza. É lógico que sei que isso é simplesmente ridículo, ninguém me cobra isso, seria até um disparate. Mas eu me cobro isso, eu. Sou capaz de ser minha própria carrasca - eu me meto medo.
Agora, pensando assim, chego a conclusão que sempre cheguei: sou uma egoísta. Tudo que sinto é de eu para mim. Todos os meus problemas me giram em torno. Tudo não chega a ultrapassar as pedras da muralha que tanto quis construir. E pronto. Tanto anos que já se seguiram, pedra por pedra, sei que qualquer mínima pertubação pode botar tudo abaixo. É assim que me sinto quando alguém me nota. Sinto os muros virem abaixo e deixarem em plena exposição meu eu frágil, franzino, cheio de dúvidas e hesitações. Pra mim soa como pecado.
Sei como é díficil, se sei, responder a questões tão simples como "o que você tem?". Não sei o que tenho, nem o que não tenho, tudo me pesa na mesma balança. E enquanto penso no que me falta ou não falta, sinto os pedregulhos rolarem rápidos da muralha, despedançando em vários pontos. "O que você tem?". Tenho vontade de responder que não tenho nada, mas que também tenho tudo, e isso faz de mim uma enorme descontente - descontente egoísta. Mas admitir uma coisa dessas realmente me faria sofrer, me deixaria à mercê daquele eu fraco que quero esconder. Então eu disfarço, não minto, mas escondo. Mentir seria vil demais, minto só se for pra não deixar que sofram por minhas preocupações, como sempre, egoístas. Só devolvo a pergunta, rápida, me achando a mais esperta das criaturas "Por quê? Pareço ter alguma coisa?". Deus sabe que esperteza demais é burrice. E eu sei, que essa minha malandragem não passa de faixada, faixada tão delicada, de alguém que se destrói por dentro.
Tenho medo de estar enlouquecendo. Não minto, tenho mesmo. Às vezes não me reconheço no espelho, às vezes não me reconheço nas mãos, nos pés, em nada. Parece que não sou eu, nem fui eu, fui só alguma coisa que inventei. Alguma coisa que não consigo controlar direito, que me escapa de vez em quando e que faz perceber, em teses egoístas de verbos em primeira pessoa, o quanto não me acho, não me entendo e me condeno. Porque viver sempre é tão difícil. Me dói viver, sei que me dói, mas não vejo outra forma para ser feliz.

quarta-feira, setembro 19, 2007

Difícil compreender as linhas da vida. Talvez nem sejam linhas - essa mania de pensar tudo em palavras. Talvez não seja nada. Um dia eu pensei, pensei sem querer, com a cabeça encostada no travesseiro, fitando o teto. Um dia, meu amor, eu pensei que a vida era generosa comigo. Generosa demais. Não sabia nem como agradecer. As cores eram mais cores pra mim. As sensações eram mais intensas pra mim. Tudo, tudo, tudo. Tudo ia e vinha em ondas de alegria. Em tons de sorriso, por Deus, em forma de felicidade. Aí eu sorri sozinha, meu amor. Sozinha. Virei para o lado, afoguei o rosto no lençol macio - estava roubando meu próprio riso, estava abafando meu êxtase pra que ele não fugisse. Compreende o egoísmo dos que são felizes de verdade? Meus olhos, então, fecharam, num sonho como os outros, num sonho com você, como sempre. Percebe que eu condicionei meus sentimentos, minhas certezas, meu ânimo e minha vida em você? Notou minha insegurança fazendo do teu chão o meu? Você viu meu amor simples, simples, puro - que só queria se salvar. De repente, assim, de repente, tudo ruiu. Não, não, não porque eu quis, não porque você quis. Mas porque a vida, a vida, meu amor, quis assim. Agora eu volto e digo: difícil entender as linhas da vida. Parece que ela voltou, voltou atrás, pra colocar aspas no começo - e no fim. Assim, como um conto, uma história bonita, um romance idealizado. Sim, sim, meu amor, porque eu lembro, eu relembro, eu busco nos detalhes das minhas lembranças indícios de realidade. Não daquela realidade, mas dessa aqui, que é cruel, que é fria, que é traiçoeira. E eu não encontro. Não encontro. Não sei se me traem, não sei se me cegam, não sei se me enganam - mas elas soam doces, soam livres, soam perfeitas. Me seduzem com ares de fantasia, me levam pra perto do seu rosto, me encantam com seu sorriso.
Não me entenda mal, meu amor, não. Não te culpo, não me culpo, nem culpo a vida. Não quero amaldiçoar ninguém, não. Não estou reclamando também. Não. Só queria um tanto de compreensão. Um tanto de maturidade, de dignidade, de respeito, de certeza. Não sei dizer, não sei explicar, mas sinto que me falta a força da fé cega, surda e muda. Me falta, sim, me falta, a força da devoção, do amor incondicional, da experiência da vida. E queria tanto descobrir como tocá-la, como fazer, me fazer, ser melhor. Dói, dói sim, ver ainda está tudo longe do meu alcance. Outras coisas me vêm, me tomam, me levam pra longe, me distraem. Outros sentimentos, outras notas da melodia. Mas (disso nunca duvidei nem vou duvidar) se minha música ainda toca, se cada dia descubro acordes diferentes, é porque tenho seu compasso ritmando minha vida. E isso me faz bem, me faz ir pra frente, viver tudo de novo, tentar de novo. Não sei agradecer, não sei provar - e nem quero. Não quero dizer pra ninguém o quanto te amo, não preciso disso. Eu sei disso, meu amor. Eu sei. Também não preciso ir muito longe, nem pensar demais, pra ver que o seu lugar, o seu lugar aqui, comigo, nunca será ocupado. Mas não é porque está vazio, mas porque está cheio, cheio de você.
Realmente me parece superficial desfilar linhas e mais linhas de algo que soa como desabafo. Me parece uma confusão, uma confusão de letras num desabafo sincero. Desabafo. Por um instante, confesso, despercebi a dimensão dos fatos, deixei que passassem ligeiros, empurrei a verdade com as mãos - tirei das vistas, pensando em enxergar lá, longe. E longe longe, longe que não existe, porque distância nunca teve. Então eu não empurrei pra lugar nenhum, nem sequer mexi, só estava lá, turvada, embaçada, miragem de lucidez. Não me vejo como dissumulada, nem displicente, nem coisa qualquer. Não sei que adjetivo usar, não sei nem que verbo pôr. E isso me assusta. Ponta de culpa? Talvez. Não sei até onde posso ir, não sei se posso voltar ou virar numa nova esquina. Eu tenho medo de errar com os outros, medo de perder, medo de pensar, medo de dizer, medo de não tentar. Então tento, fujo, choro, me perco. Queria saber as respostas, queria saber cuidar do que é importante, dos que são importantes, do que realmente vale a pena. Será que minhas mãozinhas são dignas de tamanho amor? Será, meu amor, será que minha alma é grande o suficiente pra que me espere? Será que fui capaz de te dizer tudo que deveria, todo amor que eu tinha e todo carinho que te queira?
Vida, vida, vida. Que vida é essa que pune tanto? Que magoa tanto? Que machuca tanto? Tenho pena, e pena é um sentimento vil, quero me desfazer dela. Ninguém precisa de penar, de lamentar, de desdizer - mas de estender o olhar, isso sim, de ajudar, de se mexer, de reinventar. Já faz tanto por mim, meu amor, tanto. Agora venho humilhada, pequena, ignorante dos sentidos de Deus, te pedir, mais uma vez, uma força que não se tem - porque não se dá, e porque eu não sou capaz de ter. Deposito minha esperança em você, porque, meu amor, porque minha vida só tem um sentido - sentido de amar. E eu sei que não preciso de outro caminho senão este. E não preciso de mais nada pra me bastar, as respostas estarão todas ali. Aí, aí, aí você me entra como o chão mais sólido desse meu caminho. Como o pilar mais resistente dessa grande construção que é a vida. Um dia, um dia, eu sei, minha construção vai ruir, como a de todos vão. Mas esse pilar vai ficar, ficar pra sempre - indestrutível.
Me impeço (e nem vejo razão) de me entristecer por aquilo que aconteceu, pelas lembranças enuveadas - nuvens, nuvens de sonhos. Não, não consigo lamentar, somente sorrir. Não me refiro em tons sóbrios, não me evito, não me contenho, porque alguma coisa, alguma coisa bem aqui, me sopra que o melhor a se fazer é viver. Viver mesmo que seja complicado, viver mesmo que seja sofrido - mas persistir, sim, persistir, porque estamos aqui pra construir, e não desmoronar o que um dia já foi feliz. E ainda é feliz, é, sim, tenho meu caminho pra seguir, minha certeza pra usar como escudo, teu amor pra me proteger de todos os perigos. Minha vida, meu amor, minha vida pra seguir e (me permito sonhar) espalhar esse sentimento imenso nessa realidade crua de existir.